O circo chegou na cidade

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     O circo havia chegado na cidade, uma pequena cidade sem nome, todos ficaram imensamente surpresos, afinal, nunca haviam visto nada igual por causa do lugar que se encontravam. A tenda havia sido colocada em um terreno repleto de barro marrom escuro. Um ônibus gigante trazia a figura de um palhaço sorridente, acenando com suas mãos enfiadas em luvas brancas. Mas algo quase acabou com a felicidade dos habitantes, uma pequena descrição abaixo do palhaço dizia:

"Apenas entram os que são convidados."

     O circo levou dias para ser montado, as crianças passavam na frente do lugar para tentar ver o que acontecia ali, mas o ônibus tampava quase completamente o trabalho dos encarregados em fazer aquele serviço. À noite, era possível ouvir o barulho dos martelos e da madeira sendo encaixada em algum lugar. Tudo era tão misterioso... As janelas pretas do ônibus ocultavam seja lá quais pessoas que lá estavam.
 
     Até que uma criança saiu de sua casa gritando de felicidade, com um papel prateado nas mãos, sorrindo e pulando. No papel, estava escrito com imensas letras pretas e desenhadas à mão:

PARABÉNS! 
Você foi convidado para assistir o nosso show no "Magic Cirque", venha nesse domingo, às 18:00. Estamos esperando por você!

     Ao decorrer dos dias, mais algumas pessoas receberam esse convite, no fim, somavam o total de 10 indivíduos. Felizes demais com o ingresso, se recusaram a vendê-lo para as pessoas invejosas que não receberam, afinal, não perderiam aquela oportunidade nem por dinheiro, mesmo vivendo naquela condição miserável.

     O domingo chegou, os convidados esperavam na frente da tenda mesmo antes das dezoito horas, isso, na frente da enorme tenda vermelha, pois o ônibus havia se retirado para algum lugar desconhecido. A ansiedade era visível a cada rosto pálido. Parecia magnífico, os desenhos e símbolos na tenda se estendiam até algum lugar não visível atrás dela. Desenhos negros e contínuos que pareciam nunca acabar, se destacavam facilmente no vermelho.

     Finalmente, os relógios marcaram 18:00, e, como prometido, a tenda se rasgou em um espaço pequeno, que apenas uma pessoa passava, não haviam funcionários a vista, mas os convidados pouco ligaram para isso. A tenda se abrindo sozinha? Esse deveria ter sido o primeiro sinal de que havia algo errado com aquele lugar.
     As 10 pessoas entraram rapidamente, ocupando assentos também vermelhos, espalhados ao longo daquele lugar escuro, era tudo muito confortável e de aparência cara. Olharam pra trás e, antes, onde havia aquela mísera abertura, agora o pano estava completamente fechado, como se nunca tivesse uma entrada por ali. Mas outra coisa chamou a atenção dos presentes, uma luz, ligada de repente, formava um círculo no chão, bem no centro da tenda. Foi preciso que esfregassem os olhos, pois a luz era muito forte.

     Então, emergindo das sombras, veio uma bailarina alta, vestida com um véu de cetim preto, cobrindo-a quase completamente, deixando apenas suas sapatilhas visíveis. Colocou-se no centro daquele círculo luminoso, olhando para baixo, como se tivesse tímida demais para olhar pra plateia.
    Ficou nas pontas dos dedos e, ainda olhando para o chão, tirou o véu. Sua roupa era colada ao corpo, uma roupa quase comum, se não fosse por ser inteiramente preta e brilhar intensamente. Ela ergueu seus braços em um movimento amplo e começou a dançar lentamente. Era incrível como aquele solo repleto de barro não limitava seus movimentos, as pessoas, ali presentes, pareciam hipnotizadas com a beleza que aquilo revelava.

     Não havia música, só havia o som das respirações aceleradas. A linda bailarina continuava com seus movimentos, indo da direita pra esquerda e vice-versa, nada a segurava, era de uma leveza sobrenatural. Então, com um último movimento, parou de dançar bem no lugar onde começara, na mesma posição. Pegou o véu e contornou-o em volta de seu pescoço. Respirou fundo e levantou a cabeça em um movimento rápido, olhando diretamente para frente pela primeira vez naquela noite.
     Uma criança berrou, espantada, mas ela tinha razão por se sentir assim. A bailarina possuía um rosto branco, tão branco quanto a luz que a rodeava, até seus cílios eram daquela cor tão pura, mas o espantoso não era isso, no lugar de seus olhos, haviam duas órbitas vazias, um negro permanente pairava naqueles buracos que pareciam infinitamente abertos.

     Então algo se mexeu nas sombras, bem ao lado esquerdo, mas não havia nada lá além do negrume e da falta de luz, voltaram a olhar o círculo luminoso, mas a bailaria havia sumido tão rápido quanto havia aparecido, nem ao menos havia pegadas no chão barroso. A tensão era tanta, que quase podia sentir o cheiro daquela sensação impregnada no ar. Outro indivíduo saiu das sombras e caminhou até a luz, sentiram alívio ao perceberem que era o palhaço pintado do ônibus, mas com a expressão incrivelmente mudada, o que era antes um sorriso vermelho, agora era uma boca contorcida toscamente para baixo, no lugar dos retângulos amarelos abaixo dos olhos, era exibido lágrimas pintadas e azul escuro, o resto da face estava pintado de branco, deixando aparecer rugas cor de pele. Ele mexia a cabeça de um lado para o outro, seus olhos fechados, apenas a face "enfiada" no limite da luz. Parecia um rosto sem corpo, pairando levemente a muitos centímetros acima do solo.
     Aquela criatura ficou um tempo assim, de olhos fechados, mexendo a cabeça, não parecia de modo algum humano. Depois entrou totalmente em cena, mas não estava sozinho, trazia consigo um embrulho grande em suas mãos, parecia algo pesado, estava coberto por um manto vermelho uniforme, de aparência úmida, a tinta escorria dele para o chão, manchando a roupa azul do palhaço e também seus sapatos brancos luxuosos. Ploc, ploc, ploc. Era tudo que se ouvia, os pingos ficando cada vez mais lentos à medida que aquilo se secava. O palhaço largou o embrulho no chão, como se estivesse arrependido de algo, de ter pego aquele objeto. Afastou-se até ficar novamente apenas com seu rosto visível, uma incrível dor se radiava de sua expressão, começou novamente a balançar a cabeça, parecia uma negação. Parecia negar algo ou tudo, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo.

     E então o embrulho se mexeu pesadamente, parecia se contorcer todo de dor. Os movimentos rápidos, quase vibrantes e imperceptíveis eram visíveis graças a intensidade da luz e a quietude do lugar. O palhaço entrou novamente na luz, se abaixou ao lado do embrulho e puxou o pano vermelho.
Para surpresa de todos, era a bailarina que estava enrolada naquele pano, mas havia algo de errado com a mesma. Seu rosto branco, agora, estava encharcado com um líquido intensamente vermelho, os adultos percebera o que era assim que o cheiro de ferrugem atingiu suas narinas e aquele era a mesma coisa que coloria o pano de vermelho, como um corante. Um corte se estendia do queixo da bailarina até o fim de seu corpo, de longe podia se notar os órgãos expostos. As 10 pessoas entraram em choque, alguns se levantaram e correram para onde, antes, haviam entrado, berravam sem parar, mas o pano grosso da tenda não cedia e estava pesadamente enfiado na lama para que alguém conseguisse passar por baixo.
     Por fora do circo, nada se ouvia, o silêncio era absoluto, ninguém socorreria as pessoas lá dentro e, indiferente ao pequeno tumulto, o palhaço continuou o que estava fazendo.
Ele acariciou a bailarina nos cabelos e fez algo inesperado: Abriu os olhos lentamente, revelando órbitas vazias como as da bailarina, e sorriu. Sorriu tão largamente, que os cantos de sua boca quase chegavam até as suas grandes orelhas. Os dentes eram ameaçadoramente afiados e amarelados. Passou a mão enluvada novamente pela cabeça da bailarina e soltou um riso histérico que ecoou por toda a tenda, os convidados ficaram paralisados, vendo aquela cena, os gritos, que antes preenchiam os seus pulmões, ficaram presos em algum local da garganta. A luz se apagou repentinamente, deixando-os no total escuro.

     Eles ouviam o barulho de passos aproximado, passos paralelos a eles, dava para perceber que não eram seus pés que produziam aquele barulho. O palhaço, pelo visto, não estava sozinho, parecia ser uma multidão se aproximando, as risadas histéricas ecoavam altas, até mais altas do que os gritos das pessoas que receberam o convite. O desespero era completo, mas, no fundo, todos sabiam que aquele era o fim, morreriam ali iguais a aquela bailarina deitada no chão.
     Gritos e mais gritos, risadas e mais risadas. Então tudo parou. O silêncio pairou na cidade e dentro da tenda. O relógio agora marcava cinco horas da manhã, embora não parecesse que havia passado aquele tempo todo. O sol já estava nascendo naquele pequeno local e, ao acordar, os outros habitantes ficaram surpresos! O circo já havia partido, o local estava intacto, como se nunca tivesse estado naquele lugar. As pessoas correram para as portas dos 10 convidados e bateram insistentes, ficaram quase todo o dia esperando a resposta, mas nenhum abriu a porta. Pensando ter ocorrido algo errado, entraram sem cerimônia na casa dos mesmos e ficaram boquiabertos. Sim, eles estavam na casa deles, deitados em suas camas. Mas não dormindo, cada um apresentava um corte do queixo até o final do corpo que lhe deixavam exposto os órgãos e seus olhos haviam sido arrancados.

     No pé de cada cama, foi deixado um jornal dobrado ao meio, o ano era de 1930, a 70 anos antes, a manchete destacada dizia:
MAGIC CIRQUE É OBRIGADO A SER FECHADO DEPOIS DE MASSACRE.

    O texto havia sido rasgado, mas não a manchete da outra página:
10 MORTOS FORAM ENCONTRADOS NO LOCAL, APRESENTAVAM 
SINAIS DE BRUTALIDADE E OLHOS ARRANCADOS. 
OS FUNCIONÁRIOS DO CIRCO NÃO FORAM ENCONTRADOS.

    Outra página, que parecia não pertencer ao mesmo jornal, dizia:
CORPOS DOS FUNCIONÁRIOS DO MAGIC CIRQUE FORAM
ENCONTRADOS IGUALMENTE MUTILADOS. 
APENAS O PALHAÇO CONTINUA DESAPARECIDO. 

    Acima do texto informativo, um sorriso de palhaço foi desenhado na página.




Conto original A Morte, escrito por nossa adm Cíntia Parma (Hunter)
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